A primeira caça

•fevereiro 11, 2010 • 2 Comentários

Preciso deixar as impressões sobre Érico de lado e voltar ao meu objetivo principal, narrar minhas histórias ao longo dos séculos, a começar pelo dia de minha transformação.

Assim que consegui cavar as pás de terra que pesavam sobre meu corpo e senti os raios da lua lamberem descaradamente minha pele fria, senti que já não era mais a mesma. Podia identificar cada célula do meu corpo, cada ruído ao meu redor e cada odor a metros de distância. A fome que começava a se apossar do meu corpo fez meus olhos se escurecerem e enxerguei em cada um dos outros três neófitos um adversário.

Fernão sentia no ar o clima de rivalidade e era exatamente o que ele queria. Aproximou-se, arrastando um homem de uns 30 e poucos anos, sujo e com as vestes rasgadas. Afirmo que a vontade de cada um ali era de rasgar-lhe o pescoço e sugar até a última gota do líquido precioso que corria em suas veias. Mas Fernão era nosso mestre, e não podíamos nos mover até que ele ordenasse.

Ele desamarrou o homem e disse “foge, criança” de um jeito ao mesmo tempo paternal e luxuriante, que ainda faz minha pele se arrepiar só pela lembrança. Ele deu uns cinco minutos de vantagem ao mortal e então nos liberou, dizendo que se quiséssemos viver, deveríamos provar nosso valor.

Os outros três correram desesperados mata adentro, mas eu fiquei para trás. Apesar da fome, do desespero, meu lado racional ainda se debatia dentro do que restava da minha alma e simplesmente entrei na floresta caminhando e observando como tudo a minha volta havia ganhado uma nova dimensão.

Eu tinha fome, mas havia mais fome pelo saber, pelo compreender a nova vida. Caminhei insegura pela floresta e quando notei, quando tomei ciência de meu próprio corpo percebi que não respirava, não conseguia ouvir os batimentos do meu próprio coração, apesar de todos os outros sons serem exagerados para meus ouvidos sensíveis.

Consegui ver um dos meus rivais correndo sem direção precisa e apurei ainda mais minha audição. Há poucos metros a minha direita, um coração batia descompassado. Eu conseguia distinguir o som dos músculos do peito que arfava enquanto a respiração era abafada pelo que eu julguei ser a manga da camisa.

Fui sorrateira, tal qual aprendi na minha época pagã em que me via forçada a me aproximar de um gamo e tocar-lhe o chifre para que minha vida fosse fértil, e alcancei a árvore sobre a qual o ex-prisioneiro de Fernão havia subido. Para sua infelicidade, ele havia cortado o braço na fuga e o cheiro de sangue, suor e o que eu vim saber mais tarde se tratar de adrenalina, me impulsionaram galhos acima e antes que ele pudesse exclamar surpresa, seu sangue já avermelhava meus lábios.  

Anúncios

Humanidade em lençóis de seda

•fevereiro 5, 2010 • 1 Comentário

Queria detalhar aqui tudo o que aconteceu após a “equação”, mas não consigo. Não que eu tenha algum problema em falar de sexo e de como me comporto na cama com uma presa ou com outro vampiro. Ainda hei de narrar muitas das vezes que incendiei o quarto em que me divertia com Alex…

O que limita meus relatos aqui é o fato de desconhecer o tipo de relação que estou travando com Érico. Ele tem encantos incomuns para os homens de sua idade e sua conversa flui fácil, me arrancando alguns sorrisos. Imagino ser a efemeridade de sua existência que o faz ser assim, tão profundo e leve ao mesmo tempo.

O toque das mãos de Érico na minha cintura, me fazendo mover na cama no ritmo e intensidade que ele faz questão de deixar ao meu comando, a textura da sua língua deslizando ao longo do meu colo e o perfume que se desprende de sua pele, junto com o suor que ele produz, despertam em mim sensações adormecidas.

Muitas vezes eu o pego me observando, um sorriso quase triunfante, como se afirmasse a si mesmo que era o dono da situação. Deliciosamente tolo…

No momento eu o observo dormir e acompanho o subir e descer de seu peito enquanto ele ressona. Desisti de fazê-lo minha cria, ao menos por enquanto, apenas para apreciar sua humanidade um pouco mais.

Tenho a ligeira impressão de que Alex não vai gostar disso.

Desejo entre presas II

•fevereiro 3, 2010 • 2 Comentários

Sinto não seguir uma cronologia direta em meus relatos, mas os fatos do meu passado e presente se misturam e não sei dizer, exatamente, qual deles me impinge sensações mais marcantes.

Por isso interrompo mais uma vez a narração sobre o meu despertar vampírico. Mas esta semana voltei a sentir a paixão pela caça. Érico, o rapaz que eu já citei anteriormente, tem se mostrado cada vez mais difícil e por isso mesmo mais interessante.

Há alguns dias consegui ganhar um beijo seu. Um beijo carregado de luxúria e antítese. Sim, antítese, porque pude perceber que havia desejo pulsando em seu corpo ao mesmo tempo em que ele negava a si mesmo o que de fato queria de mim. E quando ele quis partir, eu apenas sorri, lhe dei as costas e caminhei novamente para a festa em que estávamos, buscando uma taça de champanhe.

Não o vi por alguns dias, até que o destino (sim, ás vezes eu acredito que o destino existe) nos uniu novamente em mais uma convenção social. Ele não foi indelicado, pelo contrário. Aproximou-se sorridente, como quem vê uma amiga querida. E ficamos conversando por algum tempo, sempre permeando nossas palavras com uma boa dose de vinho tinto. E assim foi até que parei de falar e me dediquei a ouvir suas histórias e seus comentários sempre carregados de um humor inteligente.

Creio que meu silêncio o incomodou…

 – Nós estamos conversando há meia hora e agora você fica em silêncio.

 – Estou pensando…

 – Pensando? Você está descaradamente olhando para os meus lábios e me diz que está pensando?

 – Sim, eu estou pensando em matemática.

– Matemática?

 – Estou calculando quantas taças de vinho eu ainda tenho que beber para criar coragem de beijá-lo novamente, e quantas doses você deveria ter tomado para não recusar meu beijo. Resumidamente, estou calculando a medida do seu pudor.

 Ele baixou os olhos, encabulado com meu jeito direto de ser. Mas notei que seus lábios ameaçaram um leve sorriso. E eu tive a resposta daquela equação assim que ele tornou seus olhos para mim…

Despertar – parte I

•janeiro 29, 2010 • 2 Comentários

Meu despertar foi muito além do que a imaginação, moldada pelas cenas de cinema e obras literárias, pode ser capaz de conceber. Eu despertei, aquele dia, praticamente ao mesmo tempo em que os outros três.

Impossível enxergar qualquer coisa diante de mim. Sentia um peso sobre meu corpo e meus braços e pernas não se moviam. Apesar de ser uma cena típica de um pesadelo, não me desesperei. Jamais fui dessas mulheres que se deixam levar pela angústia e pela histeria.

O medo sempre foi meu maior aliado e por causa dele sobrevivi à Inquisição. E desta vez não seria diferente.

Precisei cavar minha saída com minhas próprias mãos. O clarão da lua acima de mim foi como ar para meus pulmões. E confesso que naquele momento não notei que minhas funções vitais haviam sido reduzidas apenas ao pulsar do meu coração.

Fernão nos esperava do lado de fora, suas presas a mostra, um brilho de luxúria no olhar e um fio de sangue avermelhando seus lábios.

O cheiro férreo que vinha de sua boca era inebriante. Assim como todos os outros aromas no local, os sons até mesmo mais remotos, as diferenças de intensidade do vento noturno. O despertar de um vampiro é a maior experiência sinestésica que existe…

Desejo entre presas

•janeiro 28, 2010 • 3 Comentários

Ainda preciso relatar aqui as sensações do meu primeiro despertar, 24 horas após ter recebido a dádiva de Fernão. No entanto, os comentários que vieram após meu último post merecem um pouco mais de atenção.

Eu ainda me surpreendo com a estranha obsessão que os humanos têm por nós, vampiros. Vejo como um quase fetiche, como se o fato de termos presas salientes e pele fria pudesse proporcionar algum prazer diferente que a carne quente dos mortais.

Aceitaria de bom grado converter a todos que pediram pela dádiva. Mas no meu clã, na família a qual pertenço, e hoje posso dizer orgulhosa que detenho a posição de ancilae, é preciso mais do que vontade para carregar o nosso sangue.

É preciso além da vontade e da inteligência a capacidade de abnegar às paixões. Sim, paixão é mal vista entre os meus e é fácil entender o porquê. Quando se é apaixonado, seja por uma pessoa, um objeto ou uma causa, é praticamente impossível se contentar com o ato de possuir o objeto de sua paixão. Paixão é consumir. Acho que isto talvez mereça um tópico a parte.

Agora, um comentário direto ao meu querido Alex, acho que encontrei finalmente alguém que possa ser minha cria. Alguém que tem exatamente o olhar curioso e indagador, a alma sedenta por saber e a mente preparada para as grandes descobertas. E um pequeno detalhe, meu querido, ele nos teme.

Preciso mesmo explicar o quanto esse temor me fascinou? O quanto pensar em apresentar-lhe um mundo até então cercado de medos e conceitos sinistros e obscuros me deixa excitada, para dizer o mínimo?

Neste aspecto ele é exatamente o oposto de Felipe. E a pele morena, o perfume amadeirado que meus sentidos aguçados puderam captar a alguns metros de distância, a barba propositalmente por fazer e os olhos com um tom entre o castanho e o verde escuro deixam esta presa ainda mais apetitosa. Tão apetitosa que penso ser possível doer ainda mais me privar dele do que me doeu ser privada de Felipe.

Mas fique próximo, caríssimo. Afinal, nunca se sabe o que esperar dos humanos!

Dor e prazer

•janeiro 6, 2010 • 5 Comentários

Há alguns dias comecei a narrar a história do meu momento, da minha transformação. Mas esqueci de mencionar que não foi nada glamouroso. Pelo contrário, foi a mais pura exaltação ao que há de mais animalesco no ser humano.

Fernão, naquela noite, fez questão de transformar um a um. Cativou-nos com sua voz, seus olhos de um castanho esverdeado, como a água dos lagos nórdicos, suas palavras escolhidas a dedo não apenas nos convenceu de que era exatamente aquilo que buscávamos, mas nos fez crer que éramos nós que lhe pedíamos uma dádiva.

Estávamos em quatro humanos junto da comitiva de vampiros e carniçais. Todos prontos para a transformação. Fui a segunda a ser mordida por Fernão.

A sensação, a princípio, é a mesma de qualquer mordida de cachorro. Você sente sua pele rasgando, o sangue fluindo, mas a medida que a presa encaixa em sua carne, a dor vai diminuindo até se tornar apenas uma pontada aguda no centro do corpo.

Enquanto o sangue foge de suas veias, um frio difícil de ser descrito começa a lamber sua pele, o torpor domina seus membros e mesmo que queira fugir, você não consegue. Está preso àquela sensação torturante.

Está seduzido pela dor e pelo brilho que começa a enxergar na dama de negro que se aproxima cautelosa. Suas mãos de dedos esguios se estendem na direção do seu coração e antes que ela possa alcançá-lo, seu criador simplesmente para.

E quando A Morte finalmente se afasta, você sente cada parte do seu corpo se romper em milhões de pedaços. Uma explosão de dor irradiada em cada centímetro de pele. O ar some de seu peito, fazendo-o doer, seu coração diminui as batidas e os olhos começam a se embaçar, e se você pudesse falar, certamente a chamaria de volta e lhe imploraria que acabasse com seu sofrimento.

Até que você sente o líquido espesso e quente escorrer em seus lábios. Agridoce, forte, férreo… O sangue de seu mestre faz a dor que lhe ferroava a carne desaparecer, dando lugar a um prazer mais que sexual. E então, é tudo escuridão…

 

Música para meus ouvidos e corpo

•janeiro 5, 2010 • 1 Comentário

Em resposta ao comentário do meu querido Alex…

 

Sim, foi uma noite memorável, caríssimo! Para ser lembrada pelas próximas décadas, com certeza. Sangue sabor champanhe, música correndo pelas veias e vinho aquecendo nossos corpos frios. O que mais poderíamos querer? 

Há tanto que não dançava daquela forma. Com entrega, luxúria, lascívia e, sim, alegria. Não que me ache melancólica ou depressiva. Mas demonstrar o que me vai na alma é só para brindar momentos como os que passamos…

 Devo registrar que notei o quanto seus dedos estão mais hábeis tanto no violão, no meu precioso Stradvarius e, claro, em outras funções também! E você jamais precisará de desculpas para retornar aos meus domínios. Tem sempre passagem livre, embora eu adoraria ouvir novamente o som que você faz fluir do meu precioso violino.

 E quem sabe não podemos repetir a melodia que você também extrai da minha pele?

 Sim isso é um convite. E um desafio!